Narcotraficantes buscam portos no Norte e Nordeste para fugir de fiscalização federal

Apreensão de 265 kg de cocaína no Porto de Natal - Polícia Federal
Com informações Agência Brasil

Relatório global do Escritório das Nações Unidas para Drogas e Crime (UNODC) divulgado nesta semana, aponta que narcotraficantes brasileiros estão escolhendo portos nas regiões Norte e Nordeste para enviar drogas para os Estados Unidos, Europa e África, como alternativas ao Porto de Santos, no litoral paulista – considerado o quarto no ranking mundial de pontos de distribuição de cocaína por via marítima no mundo – atrás apenas de Buenaventura e Cartagena, na Colômbia, e de Guayaquil, no Equador. O relatório não nomina  quais seriam os portos e estados do Norte e Nordeste, mas revela que os traficantes estão recorrendo a essas alternativas devido ao aumento da fiscalização no porto de Santos.

Na última quinta-feira, dia 30 de junho, por exemplo, a Polícia e a Receita federais apreenderam 500 quilos de cocaína, escondidos em um contêiner, em meio a uma carga lícita de açúcar. Duas semanas antes, uma tonelada da droga havia sido apreendida no porto paulista, em duas operações.

Rotas Alternativas do Tráfico

Sobre o efeito que o combate ao tráfico internacional de drogas tem exercido nas mudanças de rotas do narcotráfico brasileiro, o pesquisador Thiago Moreira de Souza Rodrigues, do Programa de Pós-Graduação em Estudos Estratégicos de Defesa e Segurança da Universidade Federal Fluminense (PPGEST/UFF) afirma:

“Existe algo chamado ‘efeito balão’, ou seja, quando se aperta uma ponta, infla a outra. Se Santos é o principal canal e a repressão opera ali, isso desloca o tráfico de drogas para outras regiões. Se estrangula de um lado, ele vai encontrar vias alternativas”, explica Rodrigues. “Os portos do Norte e principalmente do Nordeste – Recife, Maceió, Fortaleza – têm projeção” por serem “a parte da América do Sul mais próxima da Europa e da África”, acrescenta.

Em abril deste ano, a Polícia Federal (PF) fez operação contra uma organização criminosa que usava o porto de Salvador para enviar a droga para a Europa. De 2019 a 2021, mais de 3,5 toneladas de cocaína traficadas pelo grupo foram apreendidas. Em dezembro de 2021, quase meia tonelada de cocaína foi apreendida no porto de Mucuripe, em Fortaleza, pela Receita Federal. A carga, estimada em R$ 250 milhões, tinha como destino o porto de Roterdã, na Holanda. Em novembro daquele ano, foi encontrada, no porto de Natal (RN), 1,6 tonelada da droga, camuflada em uma carga de gengibre.

No mês anterior, no porto de Vila de Conde, em Barcarena (PA), foi apreendida uma tonelada de cocaína, misturada com um carregamento de manganês. Em ambos os casos, o destino era a mesma cidade portuária holandesa. Apreensões semelhantes foram realizadas neste ano em portos como Paranaguá (PR), Rio Grande (RS), em um terminal privado em Vitória (ES) e em Aracruz (ES).

Portos brasileiros seriam os principais pontos de distribuição de cocaína no mundo

Com fronteira com os três maiores produtores de cocaína do mundo – Colômbia, Bolívia e Peru – o Brasil se torna a principal saída da cocaína produzida no continente americano, pela proximidade com a África, América do Norte e Europa. Sem considerar os três países produtores, o Brasil é considerado um dos três países mais importantes no mercado de cocaína mundial, junto com Equador e México. De 2015 a 2021, 70% da cocaína apreendida na África e 46% dos carregamentos apreendidos na Ásia saíram do continente americano por meio do Brasil. Em 2020 e 2021, o país chegou a responder por 72% da cocaína encontrada pelas autoridades asiáticas.

“O Brasil já se consolidou nessa posição. Já faz mais de dez anos que o relatório tem indicado o Brasil como um ponto fundamental para o tráfico internacional em direção à Europa”, explica Thiago Rodrigues.

O relatório das Nações Unidas aponta ainda que o Brasil é um importante mercado consumidor de cocaína. Entre 2016 e 2021 foram apreendidas 416 toneladas do narcótico em todo o país, segundo dados da PF.

Fiscalização das fronteiras com países produtores

Em nota, o Ministério da Justiça e Segurança Pública informou que mantém cerca de mil profissionais de segurança em permanente vigilância nos 16,9 mil quilômetros de fronteira terrestre do país, através da Operação Hórus
e que está investindo na capacitação e na aquisição de vários tipos de embarcações para evitar a entrada de drogas através dos rios.

“Com a atuação integrada de forças de segurança estaduais e federais, de maio de 2019 a maio de 2022, foi possível evitar um rombo de R$ R$ 801,2 milhões aos cofres públicos e desfalcar as organizações criminosas em R$ 6 bilhões com a apreensão de drogas (1.515 toneladas), armas (4,4 mil), veículos (8,7 mil), embarcações (659), produtos contrabandeados e prisão de 15,3 mil pessoas”, informa a nota.