Previsão de inverno rigoroso exige cuidados extras dos pecuaristas de MS

Bosques na pastagem ajudam a proteger os animais do inverno. Foto: Embrapa Divulgação

O inverno começa oficialmente no dia 21 de junho, mas a meteorologia já registra massas de ar polar atingindo Mato Grosso do Sul desde o mês de maio. A probabilidade de frio intenso exige atenção redobrada dos produtores.

Informações de duas unidades da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária em Mato Grosso do Sul (a Embrapa Agropecuária Oeste, de Dourados, e a Embrapa Gado de Corte, de Campo Grande), além de conversas com produtores rurais do estado, apontam quais são os principais cuidados adotados pelos criadores, diante da expectativa de um período de inverno mais rigoroso que o usual no Estado, para preparar o rebanho para enfrentar o período de frio e seca.

Segundo a Embrapa Agropecuária Oeste, a probabilidade de ocorrência de geadas no estado no mês de junho é de 75%. Nota da empresa afirma: “O histórico climático do Sul do Estado de Mato Grosso do Sul, demonstra que nos anos em que ocorreu o fenômeno La Niña – a queda da temperatura da superfície das águas do Oceano Pacífico Tropical Central e Oriental – o estado sofreu com invernos mais rigorosos.”

Baixas temperaturas podem levar até à morte

De acordo com nota da empresa, no mês de junho, as temperaturas em Mato Grosso do Sul podem voltar a ficar abaixo de 4ºC, condição favorável à formação de geadas: “Quando as temperaturas caem abaixo de 3ºC, informa a Embrapa, a intensidade da geada é moderada, e abaixo de 1ºC, forte”, explica a previsão.

No ano passado, o Sul de Mato Grosso do Sul registrou geadas intensas no dia 30 de junho, quando as temperaturas mínimas foram de 0,8ºC em Ivinhema, 0,3ºC em Dourados e -2,1ºC em Rio Brilhante. Preparo da pastagem, suplementação, manejo e abrigo dos animais estão entre as preocupações dos criadores

Nutrição

Segundo o pesquisador em Nutrição Animal e Chefe de Transferência de Tecnologias da Embrapa Gado de Corte, Luiz Orcirio Fialho de Oliveira: “É preciso garantir uma forragem de boa qualidade na seca, por meio de um planejamento de reserva durante o período das águas. É possível fazer um diferimento das pastagens, que é a vedação no final do período das águas permitindo assim que haja uma reserva para a seca. Isso reduz custo da suplementação.”

O pesquisador explica: “Além dessa reserva da forragem, pela vedação, é possível também a gente preparar alimentos e armazená-los como silagem, feno, formas de armazenar seus alimentos. Também podemos fazer o plantio de forrageiras como o capiaçu, capim-elefante, que você pode, durante a seca, cortar e fornecer os animais. Então, são estratégias pensadas previamente para que a gente tenha esse alimento que é o mais viável para alimento para os bovinos que é o volumoso, as forragens armazenados.”

Suplementação

“Quando você tem forragem armazenada ou pastagem vedada, você tem um alimento de melhor qualidade, porém de valor nutricional não tão igual ao da pastagem durante o verão, período em que essas pastagens estão no seu melhor valor nutricional. Essa queda no valor nutricional pode ser minimizada pelo uso de suplementos, na forma de nitrogênio não-proteíco – a ureia – melhorando o consumo e a digestibilidade dessa pastagem, superando um dos fatores limitantes ao ganho de peso. A medida em que se agrava essa deficiência nutricional em razão da seca e do frio, a gente pode entrar com suplementos contendo carboidratos, fontes de energia para, além da proteína melhorar o resultado desses animais de ganho de peso.”

Proteção contra o frio

“Nem sempre o produtor se lembra desses detalhes. É importante deixar reservas do cerrado, bosques na propriedade para que os animais se abriguem do vento, da chuva fria. Em algumas áreas, você pode concentrar os animais em áreas com menor chance de ventos, geralmente, locais mais altos em que você deixa os animais em piquetes. Se houver previsão de frio e ventos fortes, que o produtor procure abrir a cerca para que os animais procurem locais para se abrigarem. Se possível, com reforço na alimentação, levando os cochos para um lugar mais abrigado. E a opção de áreas de pastejo arborizadas ou próximas da sede, para que os animais se abriguem, pode ser uma medida importante”, orienta. A queda brusca da temperatura combinada com ventos frios podem levar à hipotermia e até a morte.

Outro pesquisador da Embrapa Gado de Corte, o zootecnista Haroldo Pires de Queiroz, afirma em publicação sobre o tema no portal da empresa: “Se o animal for zebuíno (menos adaptado ao frio), magro (sem reservas de gordura para queimar e produzir calor), não dispuser de abrigo nem de suplementos energético de emergência e seu corpo ficar molhado pelas chuvas, o risco de vida é muito alto”, alerta o zootecnista. Na publicação Queiroz destaca que “Animal velho tem menor capacidade de responder ao frio, e, também, corre risco.” E acrescenta que, para socorrer animais contra a hipotermia, deve-se oferecer alimento energético (milho ou o sorgo triturado, farelos como o de trigo e arroz, dentre outros). A dose diária a ser fornecida é de 1 quilo de alimento para cada 100 quilos de peso vivo do animal”, orienta o zootecnista.

Manejo

Sobre cuidados específicos com o manejo, o pesquisador da Embrapa relaciona os cuidados fundamentais: “Um cuidado muito importante que deve ser analisado pelo produtor é a gestão da lotação da propriedade durante o período das águas e durante o período da seca. Se você tiver uma menor oferta de forragem e com aumento do seu rebanho, a perda de peso e o desempenho individual, com certeza, vai acontecer na propriedade. Então nós devemos ter um planejamento para que reserve pastagens para que todos os animais mantenham uma curva de ganho de peso sempre constante, ou pelo menos, razoável para que não haja prejuízo de uma forma geral.”

Gestão de pastagens

Orcírio destaca a importância de utilizar as tecnologias disponíveis; “Temos tecnologias de adubação de pastagens, onde você pode concentrar os animais durante o período das águas em uma determinada área, sobrando outra área para você manejar durante à seca. Nós temos que lembrar que a gestão da propriedade, do rebanho, da forragem são fundamentais para que ter um bom resultado e passe a seca de forma tranquila”.

Cuidados sanitários

“É fundamental que os animais tenham uma boa condição de saúde para enfrentarem esse período de maior de seca e frio, já que os animais sofrem com um período de estresse. O animal tem uma alimentação de valor nutritivo, tem o desafio do frio, da chuva, que causam prejuízos e podem levar à diminuição do desempenho dos animais”, conclui.

Gado Leiteiro

José Alceu da Silva Cabral é proprietário do Sítio Paraiso e da fábrica de queijos Dazu, em Jaraguari, a 48 quilômetros de Campo Grande. Criador da raça Jersey, uma das raças de maior destaque na produção leiteira no mundo, o produtor rural e empresário explica que a raça, apesar de bem adaptada a climas frios, exige cuidados extras na nutrição. “O pasto é plantado em piquetes e no inverno, além do reforço na ração – que é desenvolvida aqui na propriedade, reforçada com a adição de cevada com soro –, a praça de alimentação da propriedade – à qual as vacas têm acesso fácil – é protegida por árvores. É o básico!”, contou o produtor.

Novilho precoce

O diretor da Associação Sul-Matogrossense de Produtores de Novilho Precoce, Carlos Furlan, da Fazenda Natal, em Bandeirantes (a aproximadamente 80 quilômetros da Capital), falou sobre os cuidados com o gado precoce antes e durante o Inverno. “Em caso de um frio muito acentuado e com geadas é bem complicado porque o gado vive das pastagens que ficam muito prejudicadas na seca. E o novilho precoce não pode sofrer com um efeito-sanfona, quando perde peso para depois ganhar, pois a recuperação é muito ruim. Temos que ter reserva de forragem e o número de animais precisa ser bem adaptado às áreas. Como a quantidade de proteína no período é pequena, precisamos oferecer ureia para os animais, para ajudar na digestão dessa palha seca. Para garantir que os animais ganhem pelo menos 100, 150 às vezes até 200 gramas por dia. E a ração, para acabamento. A dificuldade é grande no período, o que leva os preços a aumentarem nessa época. Enquanto no período das águas, com os pastos verdes, os animais ganham 600, 700 ou até 1kg por dia dependendo da nutrição. Há ainda as opções do semi confinamento ou do confinamento com bastante ração, para suprir a falta de proteína do período”, conclui o diretor da Novilho Precoce do MS.