Veterano da 2ª Guerra Mundial morre em Campo Grande aos 98 anos

Ex-combatente participou das duas principais batalhas da Força Expedicionária Brasileira na Itália, em Monte Castelo e Montese

Antônio Fermiano, veterano do Regimento Sampaio da Força Expedicionária Brasileira (FEB) morreu nesta sexta-feira (6/4), por causas naturais, aos 98 anos, em Campo Grande, segundo nota da Associação Nacional dos Veteranos da Força Expedicionária Brasileira (AnvFEB), que celebra os feitos heroicos dos pracinhas brasileiros na 2ª Guerra Mundial.

Fermiano nasceu em Botucatu (SP), em 1922. Dois anos depois do início da 2ª Guerra Mundial  foi incorporado no Exército Brasileiro. Na época os alistados em Botucatu-SP e região serviram no então Estado de Mato Grosso uno. Ingressou no 18º Batalhão de Caçadores (18º BC) do Exército Brasileiro em Campo Grande, onde serviu por aproximadamente 8 meses. Depois sua Unidade foi deslocada para a então Capital Federal, a cidade do Rio de Janeiro.

Em homenagem da família, do Exército e da AnvFEB durante a comemoração do último aniversário, em outubro de 2020.

No dia 23 de novembro de 1944, Fermiano, aos 21 anos – juntamente com quase mil pracinhas de Mato Grosso do Sul, embarcou com um total de 4.691 soldados brasileiros que lutariam contra o fascismo e o nazismo na Europa, no navio de transporte americano General Meigs, com destino ao porto de Nápoles, na Itália, onde aportou em 07 de Dezembro de 1944. A viagem de 14 dias foi feita sob o temor dos ataques covardes dos submarinos alemães U-Bolts, que afundaram inúmeros navios civis e militares no Oceano Atlântico durante o conflito. Na Itália, Fermiano passou a integrar o contingente da Força Expedicionária Brasileira (FEB), que levou mais de 25.300 combatentes para a Itália.

A gratidão de Montese

Fermiano participou da conquista de Monte Castello e da tomada de Montese, as duas mais memoráveis vitórias dos brasileiros na 2ª Guerra Mundial e ainda libertaram entre outras cidades, Bozzano, Camaiore e Quiesa.

A Batalha teve início no dia 14 de abril de 1945. No dia seguinte, 15 de abril, Fermiano foi atingido na perna direita atingido pelos estilhaços de uma granada. Os ‘pracinhas’ brasileiros – forma carinhosa pela qual eram chamados os soldados da FEB que lutaram nos campos da Itália entre 1944 e 1945 – tomaram Montese após três dias de batalha, que destruíram 833 das 1.121 casas da cidade mas perderam mais de 400 compatriotas, entre mortos, feridos e desaparecidos.

Descendentes de italianos libertados pelos soldados brasileiros dos soldados nazistas, celebram a data até hoje. A tradição nas localidades italianas é ensinar as crianças a cantarem, em português, a Canção do Expedicionário.

Durante a campanha na Itália, 460 militares brasileiros morreram. Os feitos heroicos dos pracinhas da Força Expedicionária Brasileira foram decisivos para a desarticular as linhas de defesa alemãs.

Fermiano permaneceu internado por alguns dias e após uma rápida recuperação, voltou ao combate. Ao final da guerra, os veteranos brasileiros partiram do porto de Nápoles, no dia 11 de agosto de 1945.

O soldado e seus companheiros desembarcaram na cidade do Rio de Janeiro no dia 22 de agosto de 1945, desfilando pela cidade como heróis brasileiros, Posteriormente, Fermiano seria condecorado com a Medalha Sangue do Brasil e com a Medalha de Campanha que homenagearam os heróis da FEB nos campos de batalha na Itália.

De volta ao Brasil, Fermiano encarou à dura realidade social brasileira, sem amparo nenhum do governo da época. Trabalhou inicialmente como faxineiro e posteriormente, conseguiu ingressar, em 1946, na Força Pública como soldado. Em janeiro de 1947, Fermiano ingressou no Corpo de Bombeiros. Tornou-se um militar reformado na década de 1970, como 1º Tenente do Quadro Especial de Oficiais da Polícia Militar (QEOPM), onde até esta data, era o bombeiro mais idoso da corporação.

Homenagem no último aniversário

O veterano de guerra viveu os últimos anos em Campo Grande, onde morava com a família. Em 26 de outubro do ano passado, Fermiano completou 98 anos, quando foi homenageado pelo Exército e pela associação que mantém viva a memória dos feitos heroicos dos combatentes da Força Expedicionária Brasilera nos campos de batalha da Itália.

Recebendo uma nova medalha – que havia perdido ao longo dos anos – dentre as várias que recebeu pela participação na Força Expedicionária Brasileira.

Durante a homenagem, o veterano se emocionou:

“Fiquei imensamente grato. Eu nunca tinha recebido uma demonstração de amor e carinho como essa, desde quando vim da guerra”.

Antônio Fermiano, durante a comemoração de seu aniversário de 98 anos em Campo Grande.

Em nota, a entidade declarou:

“A irreparável perda de hoje é mais uma dura e inesperada ‘baixa’ na nossa História e na ANVFEB / MS. Segundo ele mesmo dizia: ‘Tenho muito orgulho de ter servido ao Brasil, durante a guerra. Os maiores legados do nosso sacrifício foram a Liberdade e a Igualdade!’.”

Antônio Fermiano, herói brasileiro na guerra contra o nazifascismo nos campos de batalha na Itália durante a 2ª Guerra Mundial deixa a esposa, a Sra. Leonilda Francisca de Melo Fermiano,  com quem era casado desde 14 de maio de 1955, oito filhos, oito netos e três bisnetos.

Com o falecimento de Fermiano, o Brasil tem hoje um remanescente de quatro heróis da Força Expedicionária Brasileira.

Serviço

O velório será realizado das 14h30 às 16h30, no Cemitério Jardim das Palmeiras, em Campo Grande. O sepultamento está previsto para às 16h30.


Como o Brasil entrou na 2ª Guerra Mundial

Em 23 de agosto de 1939, Adolf Hitler, ditador nazista da Alemanha e Josef Stalin, ditador comunista da União Soviética, assinavam um do Pacto de não- agressão germano-soviético, pelo qual os regimes, irmãos siameses, não entrariam em conflito na eventualidade de uma guerra na Europa. Todavia, uma cláusula secreta previa a divisão do Leste Europeu entre a Alemanha de Hitler e a URSS de Stalin. A primeira vítima do nefasto Pacto seria a Polônia.

De ideologias siamêsas o socialista Josef Stalin e o nacional socialista Adolf Hitler  inicialmente acordaram dividir a Europa entre as duas tiranias genocidas.

Em 01 de setembro de 1939, justificando-se na recusa de Varsóvia em ceder ao Reich alemão a portuária cidade de Dantzig bem como o chamado Corredor Polonês, hordas nazistas invadiram o território polaco. França e Inglaterra partiram em defesa ao seu aliado polonês, declarando guerra à Alemanha nazista. Era o início da II Guerra Mundial. Após a invasão alemã, a URSS invadiu a Polônia pelo leste.

Em 1940, enquanto o Exército comunista de Stalin avançava em uma carnificina de dominação sobre os Estados Bálticos (Lituânia, Letônia e Estônia), o leste romeno e o sul da Finlândia, no segundo semestre de 1940 somente a Grã-Bretanha resistia ao avanço do ataque alemão.

Praticamente toda a Europa Ocidental (Dinamarca, Noruega, Liechtenstein, Holanda, Bélgica e França) encontrava-se sob o jugo nazifascista, que já exercia forte influência no norte da África, nas colônias francesas de Marrocos, Argélia e Tunísia, e da Itália, sobre a Líbia. Em 22 de junho de 1941, o pacto de não-agressão entre os socialistas soviéticos e os nacionais socialistas alemães chegava ao fim, com Hitler comandando a invasão da União Soviética.

Em 06 de dezembro de 1941, a Marinha Imperial japonesa – integrante do Eixo, juntamente com a Alemanha e a Itália – lançou um ataque aéreo surpresa, com caças e bombardeiros, partir de sua frota de porta-aviões no Oceano Pacífico, à base da Marinha dos EUA, em Pearl Harbor, no Havaí que então concentrava a maior parte da frota naval norte-americana. E os EUA declaram guerra ao Japão. A Alemanha, em apoio ao Japão, declarou guerra aos EUA, seguida pela Itália.

No mês seguinte após o ataque japonês, janeiro de 1942, a chamada Conferência do Rio de Janeiro dos Estados Americanos condenou o ataque japonês e em 28 de janeiro de 1942 e comunicou à Itália, Alemanha e Japão que o Continente Americano afastava o convívio daquelas nações.

A logo da Força Expedicionária Brasileira, que fazia alusão à frase popular de que era mais fácil uma cobra fumar do que o Brasil entrar na Segunda Guerra Mundial.

Havia a crença generalizada de que a possibilidade de o Brasil entrar no conflito era mínima. Dizia-se: “É mais fácil uma cobra fumar do que o Brasil ir para a Guerra”. Mas com os integrantes do Eixo encararam a deliberação dos países da América como ato de hostilidade.

Em resposta, vários navios mercantes brasileiros, venezuelanos e mexicanos foram afundados por submarinos alemães ou italianos depois da decisão (este tipo de agressão vitimou mais de 1.000 brasileiros, entre tripulantes e passageiros, durante todo o período do conflito).

Então, o Brasil declarou guerra ao Eixo em 22 de agosto de 1942. “A cobra fumou”. Daí a escolha do símbolo da Força Expedicionária Brasileira, durante a 2ª Guerra Mundial.

Com informações Agência 14 News e Notícias Botucatu

FONTES:

Banco de Dados da FEB. Informações do Embarque. Disponível em: https://bancodedadosfeb.com.br/?page_id=25563. Acesso em 10 ago. 2020.

COSTA. Renato César Tibau da Costa. 1º Esquadrão de Reconhecimento na II Guerra Mundial. Rio de Janeiro: Centro de Estudos e Pesquisas de História Militar do Exército, 2020. Disponível em: https://issuu.com/…/o_primeiro_esquadr_o_de… Acesso em 01 out. 2020.

Decreto-Lei 1187, de 04 de abril de 1939. Dispõe sobre o Serviço Militar. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/…/decr…/1937-1946/del1187.htm. Acesso em 01 out. 2010.

GONÇALVES, José; MAXIMIANO. Cesar Campiani. Irmãos de Armas: Um Pelotão da FEB na II Guerra Mundial. Disponível em: https://chomilitaria.com/…/livro-irmaos-de-armas-para…/ Acesso em: 05 ago. 2020.

Revista Verde Oliva. Força Expedicionária Brasileira-FEB 75 anos. Brasília-DF. Ano XLVII. Nº 250. Junho de 2020. CCOMSEx. Disponível em: https://pt.calameo.com/read/001238206fc95ea4ca3d5. Acesso em 18 ago. 2020.